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Entrevista
com o Professor Alexandre Santos
Curso: "piano para crianças e adolescentes"
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| Leila:
Existe diferença entre um curso de piano popular
aplicado para adultos e para crianças ou adolescentes? |
Alexandre:
Existe sim, o enfoque principal deste curso é o
desenvolvimento da criatividade através da improvisação.
Quando se fala em improvisação, muitas vezes, nos
vem à mente músicos dotados de um talento especial,
como por exemplo, grandes jazzistas. No entanto,
podemos afirmar que improvisar não é uma qualidade
que está ao alcance só de alguns, pois o improviso
é o ato de tocar uma melodia, simples ou não, que
está sendo criada naquele momento, ou seja, sem
ter uma partitura com a melodia escrita. Geralmente
temos somente a indicação dos acordes (acompanhamento),
estes é que irão conduzir a melodia. Acredito que
nós nascemos com grande aptidão para artes e diversas
outras coisas. No entanto, a perdemos talvez por
não exercitá-las, principalmente na infância, período
em que o "ser" está se formando. A criança principalmente,
não sabe muito bem o que é o certo e o errado e
quando improvisa, não tem medo de errar, seu ouvido
não está totalmente habituado com melodias ocidentais,
orientais, ou seja lá qual for a origem, já o adulto
geralmente é mais preso a padrões.
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| Leila:
E quanto ao aspecto mais teórico da música, os conceitos,
a leitura, etc? |
| Alexandre:
É claro que a leitura, técnica, teoria e solfejo
são muito importantes, e nunca devem ser deixados
de lado. Mas estes sozinhos, muitas vezes formam
músicos presos, com pouca criatividade e talvez
até bitolados. A idéia do improviso vem como um
complemento muito importante. Outro fator importante
é o treino auditivo, mais conhecido no meio musical
como "percepção". Através de exercícios gradativos,
acredito que se pode deixar apto ou ao menos melhorar
a percepção de qualquer pessoa. A diferença do "quanto",
isto sim depende muito do indivíduo que está sendo
treinado. De fato existem pessoas que já trazem
em si um ouvido melhor desenvolvido, mas aqueles
que não têm, não devem ficar apenas admirando, só
terão que exercitar mais para atingir um bom nível.
Eu costumo dar exercícios auditivos durante as aulas,
a minha idéia é desenvolver músicos que saibam interpretar
não só uma partitura, mas também tenham um bom ouvido.
Existem várias situações que será necessário ter
esta qualidade. |
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| Leila:
Aproveitando o assunto, qual a sua opinião a
respeito de músicos que "tocam tudo de ouvido",
muito comum em música principalmente popular, e
também gostaria de saber se você acredita em talento
que já nasça com a pessoa? |
| Alexandre:
É um assunto que a meu ver, é difícil emitir uma
opinião concreta, tocar de ouvido é realmente comum
em música popular e folclórica. Acredito que Bach,
Mozart, Beethoven e tantos outros grandes compositores,
tinham excelentes ouvidos e extrema sensibilidade,
quem não conhece a história diz que quando Beethoven
escreveu parte da nona sinfonia estava completamente
surdo, isto prova que a musicalidade que ele tinha
era intrínseca, ou seja, vinha de dentro. Existem
excelentes músicos que tocam "de ouvido", mesmo
assim aprovo a idéia de que é necessário um estudo
dirigido para que este seja realmente completo,
principalmente se este músico quiser atuar profissionalmente
no mercado. Imaginem um músico que toque apenas
"de ouvido", sem o auxílio de partituras, vamos
supor que este tenha uma técnica digamos que "natural",
se este músico for considerado bom, com o estudo
dirigido (leitura, técnica, solfejo, harmonia),
viria a ser excelente com o tempo, com certeza iria
ser mais requisitado, teria mais campo de trabalho,
como por exemplo, poderia trabalhar em trilhas sonoras,
ministrar aulas, fazer arranjos, escrever suas composições
(no caso de compositores) e muitas outras coisas.
Quanto a questão do talento nato; bem, eu não gosto
muito do termo genialidade, portanto vou afirmar
que acho que a sensibilidade de alguns compositores
é realmente incrível, qualquer afirmação que eu
faça, corre o risco de não corresponder à verdade,
portanto, irei afirmar que de acordo com as fontes
da qual eu pesquisei, e de acordo com as vivências
que eu tive penso que quando ouço algumas melodias,
simplesmente lindas, e tento imaginar como forma
feitas, percebo que não chego a nenhuma conclusão,
acho apenas que quem as criou, na verdade, não as
criou, elas já estavam criadas, algumas pessoas
apenas as ganharam de presente. Essa coisa de receber
inspiração, eu não acredito, acredito que o compositor
vai atrás da inspiração e não ela atrás dele. O
compositor do período barroco Johann S. Bach (1685-1750),
conhecido por tantos, não me lembro bem quanto,
mas sei que ele tinha que compor inúmeras músicas
para a corte que ele trabalhava, e dentro destas,
todas eram excelentes, já imaginou se ele tivesse
que esperar pela inspiração. |
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| Leila:
Quer deixar alguma mensagem ou dica para o leitor? |
| Alexandre:
Quero sim, agradeço a oportunidade, e para concluir
peço que os pais, conservatórios, escolas de música,
etc. incentivem as pessoas e elas mesmas se sintam
incentivadas a se envolverem um pouco mais com a
música, aprendam a tocar algum instrumento, um pouco
mais de arte em geral para que tenhamos seres humanos
melhores. |
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